Quando o personagem histórico está suficientemente morto, podemos fazer quase tudo com ele. Inventar silêncios. Preencher lacunas. Emprestar intenções que os documentos não registraram. Ninguém cobra a dívida.
Mas há personagens que não estão suficientemente mortos. Não porque ainda vivam, mas porque ainda habitam o imaginário de quem lê. Narrar esses personagens é outro tipo…
Existe uma categoria de pessoa nas redes sociais que não é exatamente um hater. O hater, ao menos, tem uma motivação. Há nele uma energia, ainda que torta. O que me perturbou outro dia foi algo diferente. Um espécime que eu só consigo chamar de palpiteiro.
Venho lançando semanalmente um capítulo d'O Último Trem no…
Costumo dizer que O Último Trem é um projeto menor. E, enquanto digo, acredito.
É verdade. E é uma meia verdade.
O romance nasceu numa pausa. Minha Leitora Crítica precisava de tempo para analisar Rios de Sangue e Ouro, um livro que ela praticamente está me fazendo reescrever do zero. Enquanto esperava, escrevi O Último…
Voltei das férias de janeiro com uma lista. Não o tipo que se escreve e se esquece; o tipo que assombra. Três itens. E cada um deles, à sua maneira, acabou revelando algo que eu não esperava encontrar.
O primeiro item era concluir O Último Trem e enviá-lo às editoras. Concluí em janeiro. Em fevereiro,…
Quando comecei a escrever o romance Rios de Sangue e Ouro, deparei-me com um dilema narrativo e moral. Decidi que Manuel Borba Gato seria o antagonista principal da história. A lógica parecia simples: ao narrar os acontecimentos a partir do ponto de vista dos emboabas, os paulistas, liderados por Borba Gato, naturalmente ocupariam o papel…
Escrever às vezes parece um gesto para fora. Um movimento de quem entrega algo ao mundo. Mas, para mim, nunca foi exatamente assim.
Quando escrevo, não sinto que estou lançando palavras adiante. Sinto que estou descendo. Mergulhando. E quanto mais fundo vou, menos protegido fico.
Criar personagens é uma forma de me esconder e, ao…
Matar um personagem, na maioria das vezes, é um gesto técnico. Faz parte da arquitetura do romance. Move engrenagens. Fecha arcos. Cumpre promessas narrativas. Às vezes é o clímax inevitável; outras, é apenas a consequência lógica de escolhas malfeitas. O autor planeja, calcula, decide. E executa.
O problema começa quando o cálculo falha. Ou melhor:…
Rios de Sangue e Ouro voltou da Leitora Crítica antes do início das férias escolares. Minha primeira leitura do parecer me inquietou. Não havia nada ali que eu pudesse simplesmente cortar sem ferir o sentido da obra; e o corte era, justamente, o que eu buscava.
Viajei, voltei à rotina, deixei o texto repousar. No…
Às vezes me pego pensando se Deus não é, antes de tudo, um escritor.
As pistas estão espalhadas como notas de rodapé da criação. O Gênesis afirma que o mundo foi feito pela Palavra. O Evangelho de João vai além: no princípio era o Verbo e o Verbo não apenas estava com Deus, como era…
Um dos grandes riscos de se escrever ficção histórica reside na tentação de tomar partido, não apenas de um grupo ou personagem, mas de uma interpretação específica da História, quase sempre filtrada por nossas próprias convicções políticas, morais e afetivas. O passado, quando narrado, raramente se apresenta de forma neutra: ele nos provoca, nos desafia…
Quem acompanha meus textos percebeu, nas últimas semanas, a aparição discreta de um novo rosto no universo de Joaquim Gonçalves de Toledo: Antônio Gonçalves de Carvalho. Não, eles não compartilham laços de sangue, apenas uma coincidência, nascida de um erro de digitação que acabou produzindo um sobrenome cuja sonoridade me agradou. Às vezes, a literatura…
Nesta segunda-feira publiquei o conto da semana. É a rotina: começo as segundas com ficção, como quem acende uma vela para inaugurar o ritual da escrita. Mas, desta vez, o espanto foi maior do que o habitual. Tenho dito com frequência que meu ímpeto criativo parece disposto a me conduzir à beira da loucura, porém…
