Era o barulho seco de um impacto (como metal rasgando o ar) seguido de um grito feminino que se desmanchava na escuridão. Flávio despertou sobressaltado, o peito arfando, a pele ensopada. Que pesadelo mais estranho. E tão absurdamente vívido. Piscou algumas vezes até reconhecer o contorno familiar da cabeceira. Cinco da manhã de uma segunda-feira.…
Era estranho ver-se ali, estendido no caixão, como quem comparece ao funeral de um amigo íntimo, desses cuja ausência dói antes mesmo de consolidar-se. A cena era a mesma que tantas vezes testemunhara em vida. “Em vida”… a palavra lhe riscou o pensamento como ironia. Vivera aqueles rituais tantas vezes; agora os repetia, mas de…
Era meados da década de 1940 em Barra Mansa, quando a cidade oscilava entre dois mundos: o das roças cansadas e o das chaminés que começavam a cuspir fumaça no horizonte.
A Vila Nova, ainda um bairro afastado, mais ligado às fazendas do que ao centro urbano, surgia como um corpo estranho a meio caminho…
A exaustiva viagem de volta pela trilha da Mantiqueira, a mesma que os havia levado a Ayuruoca, consumiu Padre Matias em uma mistura de apreensão e alívio. Cada passo do cavalo que carregava o santo oco era um martírio silencioso, e cada sombra que se alongava ao entardecer trazia consigo o temor gélido dos vigilantes…
Na tarde morna de 24 de dezembro de 1969, Margarida caminhava devagar pela rua de terra, levando contra o peito um saco de papel leve como uma promessa. Tinha acabado de completar dez anos. Terceira de sete filhas — Violeta, Camélia, Margarida, Azaleia, Rosa, Magnólia e a pequena Melissa ainda ensaiando o primeiro balbucio —…
Há quem diga que, nas madrugadas de sexta-feira, quando o sino da Matriz de São Sebastião bate doze vezes, uma mulher de branco cruza em silêncio o portão de ferro do cemitério municipal. O vento se agita, os cães se calam, e o som de passos leves percorre as ruas do centro. Chamam-na Dama do…
A noite caíra pesada sobre Ayuruoca, e com ela, o peso da convocação de Joaquim Gonçalves de Toledo sobre a alma de Antônio de Carvalho. Com o coração aos pulos, um misto de medo e uma estranha resignação, Antônio dirigiu-se à casa do superintendente. Cada passo na escuridão parecia ecoar a iminência de um julgamento.…
Aconteceu no final dos anos de 1970. Manuel era um mineiro miúdo, de fala mansa e passos curtos, que descia de Arantina toda semana no trem de Minas. Vinha com um balaio de queijos e doces, que vendia nas lojas do centro de Barra Mansa e nas casas das senhoras piedosas, sempre dispostas a ajudar…
Era o começo dos anos 1960 quando Iara desceu do sertão da Fumaça com o marido, João, e os cinco filhos. Vieram a pé em parte da viagem, pegando carona em caminhões, trem e esperança. Diziam que em Barra Mansa havia trabalho, e João, pedreiro de primeira, acreditou que ali poderia recomeçar.
Mas o tempo…
Não vamos usar nomes verdadeiros para não comprometer ninguém. Comecemos, então, pelo homem que tudo sofreu até se dobrar inteiramente.
João Henrique — ou Joca, como o chamavam os amigos — era, no final dos anos 1980, um empresário respeitado em Barra Mansa. Casado havia mais de vinte e cinco anos, pai de dois rapazes…
A alvorada daquele dia fatídico de 22 de dezembro de 1764 despontou com uma crueza quase brutal sobre Vila Rica. Ao invés da suavidade costumeira do amanhecer, o sol surgiu como uma brasa incandescente, lançando raios de luz intensos e implacáveis que dissiparam as sombras da noite sem qualquer cerimônia. As ruas de pedra, ainda…
Era o réveillon de 2000. Enquanto quase todos brindavam a chegada do novo milênio — nas praias, sob fogos, cervejas e promessas —, dois primos, Fabrício e Rivaldo, estavam trancados no quarto, diante do computador. Tinham dezessete e dezesseis anos, e esperavam, ansiosos, o fim do mundo anunciado pelo “bug do milênio”. Entre uma risada…
