Uma das primeiras decisões que tomei ao escrever Rios de Sangue e Ouro, ainda nas páginas iniciais, quando a saga era apenas um esboço do que se tornaria, foi sobre os diálogos. Não sobre o que os personagens diriam. Sobre como diriam.
A intuição veio de leitor, antes de vir de escritor: diálogos numa ficção…
Outro dia, no meio de uma crônica, parei numa frase.
Era uma frase boa. Dizia com precisão o que eu queria dizer, encaixava no argumento, tinha o peso certo. Eu a escrevi sem hesitar, como se fosse minha. Só depois, relendo, senti que havia algo fora do lugar. Não na frase. Na autoria. Fiquei parado…
Já faz mais de quinze anos que o Conselho Nacional de Educação emitiu o parecer desaconselhando a distribuição de Caçadas de Pedrinho nas escolas públicas sem mediação crítica. Lembro-me da polarização que se seguiu. De um lado, intelectuais e ativistas que argumentavam que o Estado não deveria endossar, sem contraponto, textos que desumanizassem a criança…
Nas Confissões, há um momento em que o jovem Agostinho se muda para Milão e encontra Ambrósio. O bispo que, sem sequer tentar, acabaria por convertê-lo e batizá-lo. É uma das cenas mais silenciosas do livro. Ambrósio não debate com Agostinho, não o persuade com argumentos, não se apresenta como mestre. Simplesmente existe com uma…
Tudo que aprendi sobre como se escreve um romance pode ser resumido assim: primeiro você pensa a história, cria os personagens, planeja os capítulos. Só então escreve. Depois de escrito, você revisa, desconstrói, reconstrói, cria novas estruturas, revisa de novo. Um leitor crítico. Depois um leitor beta. Nova revisão, novas demolições, restaurações de estruturas que…
No meio de uma sessão de revisão que tem consumido muitas horas de minha vida, parei numa cena específica de Rios de Sangue e Ouro: Joaquim sozinho, construindo uma casa que não será habitada por ninguém.
Ali, com o manuscrito aberto na tela, aconteceu algo que só posso nomear com a palavra certa: anagnórise. O…
Outro dia, revisando um capítulo de Rios de Sangue e Ouro, dei-me conta de que já faz mais de um ano que escrevo todos os dias. Há os finais de semana, há as férias. Mas ultimamente ando escrevendo também nos fins de semana, e suspeito que acabarei escrevendo nas férias. O hábito se instalou. Tenho…
Registro o processo de criação de Rios de Sangue e Ouro aqui porque a memória falha. Não a memória dos fatos (essa nos arquivos) mas a memória das razões. Por que esta cena existe. Por que este personagem toma esta decisão que parece estranha e só faz sentido quando se conhece a história inteira, inclusive…
Eu escrevi Manuel Nunes Viana como ele gostaria de ser lembrado.
Não foi intenção. Foi pior: foi desleixo intelectual disfarçado de pesquisa. Mergulhei nas fontes, encontrei as narrativas que me seduziram. O primeiro governador escolhido pelos mineradores, o defensor dos forasteiros, o líder que emergiu da vontade do povo, e escrevi o personagem que essas…
Continuo em minha saga de revisar Rios de Sangue e Ouro e há algo ali que não consigo mais segurar: Joaquim não me obedece. Não da maneira que ele obedecia. Quando o forço a agir como antes, ele resiste com uma passividade que é, em si mesma, uma forma de protesto.
Comecei a escrever na…
Escrever às vezes parece um gesto para fora. Um movimento de quem entrega algo ao mundo. Mas, para mim, nunca foi exatamente assim.
Quando escrevo, não sinto que estou lançando palavras adiante. Sinto que estou descendo. Mergulhando. E quanto mais fundo vou, menos protegido fico.
Criar personagens é uma forma de me esconder e, ao…
Matar um personagem, na maioria das vezes, é um gesto técnico. Faz parte da arquitetura do romance. Move engrenagens. Fecha arcos. Cumpre promessas narrativas. Às vezes é o clímax inevitável; outras, é apenas a consequência lógica de escolhas malfeitas. O autor planeja, calcula, decide. E executa.
O problema começa quando o cálculo falha. Ou melhor:…
