Tenho que admitir: estou inquieto, quase febril.
Dentro de no máximo duas semanas receberei a devolutiva de Rios de Sangue e Ouro. A saga de Joaquim Gonçalves de Toledo, que carrego comigo como quem carrega um fantasma antigo, talvez precise ser inteira revisitada… ou talvez não. Esse “ou não” me acompanha como um sussurro carregado…
“Se o maior pecador que você conhece não é você, você precisa se conhecer.”
A frase atribuída a C.S. Lewis sempre me pareceu ao mesmo tempo inquietante e reconfortante. Inquietante porque nos obriga a olhar para dentro sem disfarces; reconfortante porque revela algo simples: a distância que exagera os defeitos dos outros desaparece completamente quando…
Todos os dias desperto com o mesmo temor: o de não ter nada a oferecer ao mundo. O de não encontrar, nas pequenas raspas do cotidiano, a matéria frágil de que são feitas as minhas palavras.
Minhas reflexões nascem das conversas silenciosas que travo comigo mesmo — diálogos tortos, inacabados, que às vezes levo dias…
Se você me conhece, não se assuste — e, principalmente, não se ofenda — se um dia se descobrir em alguma linha que escrevi. A culpa é desse vício antigo de observar gente: seus gestos miúdos, suas manias involuntárias, seus silêncios que dizem mais que qualquer discurso. Há quem colecione moedas, selos ou receitas de…
Vocês conhecem a história de Atena? Contam os antigos que Zeus, tomado por uma dor de cabeça tão funda que parecia vir das raízes do mundo, chamou Hefesto — aquele artesão divino que nunca recusa um pedido, mesmo quando ele beira a loucura. Pois bem, Hefesto ergueu o machado e, com um golpe seco, rasgou…
Se há algo que me enche de um orgulho quase infantil é quando alguém lê um dos meus contos, franze o cenho e pergunta, meio desconfiado, de quem estou falando. É como se buscassem, por trás das palavras, o rosto real que teria dado origem à personagem. Para mim, essa suspeita é o melhor elogio:…
Teve uma amiga que, meio em brincadeira e meio em advertência, disse que estou com “dedos nervosos” de tanto escrever. Não deixa de ser verdade. O que meus dedos transbordam no teclado é apenas a espuma visível do que me atravessa por dentro. O volume do que escrevo é a sombra tímida do volume do…
Como já é sabido de alguns, meu romance Rios de Sangue e Ouro está em uma fase importante: a leitura crítica. É o momento de lapidar o texto, de aparar as arestas e fazer com que cada palavra cumpra seu papel. O objetivo é simples e ambicioso ao mesmo tempo — entregar ao leitor a…
Assisti a Branca de Neve e os Sete Anões quando ainda era criança. Lembro-me da serenidade com que aceitei o final: “e viveram felizes para sempre”. Era uma promessa simples, luminosa, quase automática — como se o mundo obedecesse a uma gramática de bondade. Mas o tempo, que não perdoa as certezas, me ensinou que…
Outro dia, tive a infeliz ideia de reler alguns textos que escrevi antes dos trinta. Descobri duas coisas: primeiro, que a juventude é mesmo linda. Segundo, que ela é uma desgraça em matéria de inteligência.
É curioso como o tempo é um ladrão que, ao mesmo tempo, devolve o que rouba. Ele leva o frescor…
Há uma etapa na vida de um escritor que ninguém conta. Não é o começo, cheio de entusiasmo, nem o fim, quando o livro ganha forma impressa e o autor posa sorridente ao lado de sua criatura. É o entremeio. O purgatório. O momento em que a história já não lhe pertence inteiramente, mas ainda…
Escrever, para mim, nunca foi um fardo. É quase um gesto natural, como respirar fundo diante de uma lembrança ou deixar escapar um suspiro depois de um sonho. Palavras me servem de espelho e também de remédio: nelas, reconcilio-me com o passado e risco, à mão livre, esboços do futuro. A escrita é o lugar…
