A plataforma da estação de Barra Mansa cheirava a carvão e a despedida.
Era sábado, quinze de janeiro de 1944, e o trem para o Rio de Janeiro esperava com a impaciência das máquinas: vapor vivo, rodas paradas, como um cavalo que morde o freio. Na plataforma, a aglomeração habitual de mães e noivas e…
A Missão Sagitarius, lançada em 2089, atingiu a heliopausa após décadas de viagem a 10% da velocidade da luz. Ao cruzar essa fronteira, o núcleo da nave atuou como acelerador de massa: ejetou a Torre de Observação para trás pelo efeito de recuo, zerando sua inércia. A Torre estacionou no vazio interestelar, sem tripulação, operada…
O teto do corredor era alto demais para que os passos deixassem eco. Era essa a primeira coisa que Valéria havia aprendido sobre o Paço de São Cristóvão: a pedra ali absorvia os sons como absorve os segredos completamente, sem deixar rastro.
Ela dobrou o corredor com a bandeja equilibrada na palma direita, a cabeça…
Otávio ficou parado no vão da porta por um tempo que não soube medir. A secretaria estava vazia. Não apenas desocupada. Vazia de um modo mais fundo, como se o silêncio tivesse substância, como se pudesse ser tocado. As cadeiras no lugar. As prateleiras ainda com as pastas, finas demais para o que já foram.…
Barra Mansa, 16 de novembro de 1889. O telegrama chegou antes do sol.
O escrevente da estação dobrou o papel com cuidado excessivo antes de entregá-lo. O Barão de Guapy leu uma vez. Leu duas. Depois ficou parado na varanda com a xícara de café esfriando na mão, olhando para a rua ainda vazia, como…
Era maio de 2040, e o entardecer caía sobre o bairro como alguém que desiste.
Márcio caminhava devagar, as mãos nos bolsos, os olhos percorrendo fachadas que já foram orgulho de alguém. Restavam as marcas. A moldura de uma janela trabalhada em pedra, um portão de ferro com iniciais forjadas, uma calçada de mosaico português…
Era de manhã cedo quando Rafael deixou Ana e o filho na casa da sogra. Pedro tinha quatro meses. Estava dormindo quando o pai o colocou nos braços da avó. Pesado e morno, com aquele cheiro que Rafael já reconhecia como a coisa mais sua do mundo.
Entrou no carro. Em vez de virar à…
A alforria chegou num papel dobrado em quatro, com um selo e a data de outubro de 1877. Thomas segurou o documento com as duas mãos, como quem segura algo que pode voar. Paulina ficou em pé ao lado dele, quieta. Ela não precisava ler. Via na testa do marido a contração de quem está…
O sol deitava-se preguiçoso atrás das montanhas. O Rio Paraíba do Sul corria tranquilo naquele fim de tarde, sua voz baixa e constante misturada ao canto dos sabiás.
No rancho de taipa encostado à beira do caminho, João Ribeiro acomodou os ossos num banco de tronco e tirou o chapéu de couro surrado. Tinha cinquenta…
O ar não se movia sobre Vila Rica naquela manhã de 15 de agosto de 1762. No Solar dos Toledo, o cheiro de cera queimada se misturava ao odor de ervas cozidas que vinha do quarto de Ana Maria. Isabel apertava o terço entre os dedos, sentindo a madeira gasta das contas. Cada grito da…
Como uma cidade decide o que merece continuar vivo e o que precisa morrer de novo.
Três tiros ecoaram no silêncio da manhã. Pop. Pop. Pop.
O Ford preto arrancou antes que alguém abrisse a janela. Subiu a ladeira em direção à Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, cuspindo pedra e poeira como se…
Por muitos anos, antes mesmo de Bal se tornar caçador, um grupo de lobos passou a rondar o acampamento. Onde a tribo ia, eles vinham atrás.
Não se aproximavam do fogo. Não mostravam os dentes. Permaneciam à distância, sentados, deitados, às vezes quase invisíveis entre as sombras. Esperavam apenas o que sobrava das carcaças trazidas…
