Perdi as contas de quantas vezes parei em Congonhas. Sempre foi assim: ponto de passagem, descanso de estrada, pausa entre o que ficou e o que ainda está por vir. Desta última vez, ia em direção a Diamantina. O carro cheio, o cansaço, e os doze profetas de Aleijadinho no alto do adro (como sempre…
A memória mais antiga que tenho com a religião não é de uma ideia. É de um cheiro. O perfume pesado de velas numa tarde de domingo, e a mão da avó do meu pai segurando a minha com uma firmeza tranquila, como quem não precisa explicar onde está nem para onde vai. Eu devia…
Fui eu que recebi o pólipo em minhas mãos para levá-lo ao laboratório. Era grande demais para ser algo trivial. Senti um calafrio. Não o tipo que a temperatura provoca, mas aquele que surge quando a mente percebe algo antes de conseguir formular o que percebeu.
Os dias seguintes não trouxeram respostas imediatas. Trouxeram silêncio.…
Faz mais de dez anos que estive em Turim, durante uma rara exposição do Santo Sudário. Não é algo que acontece com frequência e menos ainda que coincida com a presença de alguém que, como eu, carregava há anos um fascínio que não sabia nomear. Descobri o que era ao entrar na Catedral de São…
Há uma pergunta que atravessa silenciosamente tanto a física quanto a teologia, ainda que raramente seja colocada com a devida crueza: se o tempo já existe como totalidade (se passado, presente e futuro coexistem numa única estrutura) o que exatamente significa ser livre?
Não cheguei a essa pergunta por um caminho acadêmico. Cheguei por uma…
Durante muito tempo, minhas orações foram respondidas apenas pelo silêncio. Não o silêncio de quem ainda não encontrou as palavras, mas o silêncio de quem começa a suspeitar que do outro lado não há ninguém ouvindo. Ou pior: que havia, mas que agora havia partido. Essa é uma das experiências mais desorientadoras que conheço. E…
Nas memórias da minha infância, a liturgia da Semana Santa tinha peso, cheiro e som. Lembro-me do aroma denso do incenso pairando no ar, do ruído oco e fúnebre da matraca que substituía os sinos festivos, e das imagens dos santos cobertas por panos roxos, ocultando a glória para revelar o luto.
Mas, de todo…
Escrevi dias atrás sobre o perdão (O Perdão e o Talvez). No texto disse que ele é o ato mais humano que existe porque está intimamente ligado à esperança. Acrescentei algo que pode ter soado estranho: Deus não tem esperança.
Não desenvolvi.
Talvez porque, naquele momento, meu foco fossem as relações humanas. Mas a frase…
Quando o Céu Sorri Antes da Quaresma
Dizem que o carnaval é tempo de excessos. E é mesmo — mas talvez o excesso não esteja onde imaginamos. Há quem exagere na carne, há quem exagere no julgamento. E, entre uns e outros, esquecemos o essencial: o cristianismo é a religião da alegria — e é…
Todo ano é a mesma confusão. Chega o 14 de fevereiro e a internet inteira se divide entre os que celebram o Valentine’s Day e os que acusam os românticos de “colonialismo cultural”. Pois bem, vamos com calma — e com história.
O Dia dos Namorados, lá fora, nasceu de um mártir: São Valentim de…
Às vezes, relendo meus próprios diários, percebo uma estranheza silenciosa na forma como escrevo. Digo que “meu cérebro cria” com a mesma naturalidade com que diria que “meu coração bombeia sangue” ou que “meus rins filtram impurezas”. Como se o cérebro fosse apenas mais um órgão cumprindo sua função, importante, sem dúvida, mas ainda assim…
Este texto será publicado muito tempo depois de ter sido escrito. Ele nasceu logo após meu retorno da missa da Sagrada Família, celebrada no domingo seguinte ao Natal do Senhor, ainda no interior da oitava natalina. A liturgia da Igreja, como sabemos, é cíclica: retorna, ano após ano, aos mesmos textos bíblicos, símbolos e gestos.…
