Quando comecei a escrever o romance Rios de Sangue e Ouro, deparei-me com um dilema narrativo e moral. Decidi que Manuel Borba Gato seria o antagonista principal da história. A lógica parecia simples: ao narrar os acontecimentos a partir do ponto de vista dos emboabas, os paulistas, liderados por Borba Gato, naturalmente ocupariam o papel…
Escrever às vezes parece um gesto para fora. Um movimento de quem entrega algo ao mundo. Mas, para mim, nunca foi exatamente assim.
Quando escrevo, não sinto que estou lançando palavras adiante. Sinto que estou descendo. Mergulhando. E quanto mais fundo vou, menos protegido fico.
Criar personagens é uma forma de me esconder e, ao…
Matar um personagem, na maioria das vezes, é um gesto técnico. Faz parte da arquitetura do romance. Move engrenagens. Fecha arcos. Cumpre promessas narrativas. Às vezes é o clímax inevitável; outras, é apenas a consequência lógica de escolhas malfeitas. O autor planeja, calcula, decide. E executa.
O problema começa quando o cálculo falha. Ou melhor:…
Rios de Sangue e Ouro voltou da Leitora Crítica antes do início das férias escolares. Minha primeira leitura do parecer me inquietou. Não havia nada ali que eu pudesse simplesmente cortar sem ferir o sentido da obra; e o corte era, justamente, o que eu buscava.
Viajei, voltei à rotina, deixei o texto repousar. No…
Às vezes me pego pensando se Deus não é, antes de tudo, um escritor.
As pistas estão espalhadas como notas de rodapé da criação. O Gênesis afirma que o mundo foi feito pela Palavra. O Evangelho de João vai além: no princípio era o Verbo e o Verbo não apenas estava com Deus, como era…
Um dos grandes riscos de se escrever ficção histórica reside na tentação de tomar partido, não apenas de um grupo ou personagem, mas de uma interpretação específica da História, quase sempre filtrada por nossas próprias convicções políticas, morais e afetivas. O passado, quando narrado, raramente se apresenta de forma neutra: ele nos provoca, nos desafia…
Quem acompanha meus textos percebeu, nas últimas semanas, a aparição discreta de um novo rosto no universo de Joaquim Gonçalves de Toledo: Antônio Gonçalves de Carvalho. Não, eles não compartilham laços de sangue, apenas uma coincidência, nascida de um erro de digitação que acabou produzindo um sobrenome cuja sonoridade me agradou. Às vezes, a literatura…
Nesta segunda-feira publiquei o conto da semana. É a rotina: começo as segundas com ficção, como quem acende uma vela para inaugurar o ritual da escrita. Mas, desta vez, o espanto foi maior do que o habitual. Tenho dito com frequência que meu ímpeto criativo parece disposto a me conduzir à beira da loucura, porém…
Tenho que admitir: estou inquieto, quase febril.
Dentro de no máximo duas semanas receberei a devolutiva de Rios de Sangue e Ouro. A saga de Joaquim Gonçalves de Toledo, que carrego comigo como quem carrega um fantasma antigo, talvez precise ser inteira revisitada… ou talvez não. Esse “ou não” me acompanha como um sussurro carregado…
“Se o maior pecador que você conhece não é você, você precisa se conhecer.”
A frase atribuída a C.S. Lewis sempre me pareceu ao mesmo tempo inquietante e reconfortante. Inquietante porque nos obriga a olhar para dentro sem disfarces; reconfortante porque revela algo simples: a distância que exagera os defeitos dos outros desaparece completamente quando…
Todos os dias desperto com o mesmo temor: o de não ter nada a oferecer ao mundo. O de não encontrar, nas pequenas raspas do cotidiano, a matéria frágil de que são feitas as minhas palavras.
Minhas reflexões nascem das conversas silenciosas que travo comigo mesmo — diálogos tortos, inacabados, que às vezes levo dias…
Se você me conhece, não se assuste — e, principalmente, não se ofenda — se um dia se descobrir em alguma linha que escrevi. A culpa é desse vício antigo de observar gente: seus gestos miúdos, suas manias involuntárias, seus silêncios que dizem mais que qualquer discurso. Há quem colecione moedas, selos ou receitas de…
