Há quem diga que, nas madrugadas de sexta-feira, quando o sino da Matriz de São Sebastião bate doze vezes, uma mulher de branco cruza em silêncio o portão de ferro do cemitério municipal. O vento se agita, os cães se calam, e o som de passos leves percorre as ruas do centro. Chamam-na Dama do…
A noite caíra pesada sobre Ayuruoca, e com ela, o peso da convocação de Joaquim Gonçalves de Toledo sobre a alma de Antônio de Carvalho. Com o coração aos pulos, um misto de medo e uma estranha resignação, Antônio dirigiu-se à casa do superintendente. Cada passo na escuridão parecia ecoar a iminência de um julgamento.…
Aconteceu no final dos anos de 1970. Manuel era um mineiro miúdo, de fala mansa e passos curtos, que descia de Arantina toda semana no trem de Minas. Vinha com um balaio de queijos e doces, que vendia nas lojas do centro de Barra Mansa e nas casas das senhoras piedosas, sempre dispostas a ajudar…
Era o começo dos anos 1960 quando Iara desceu do sertão da Fumaça com o marido, João, e os cinco filhos. Vieram a pé em parte da viagem, pegando carona em caminhões, trem e esperança. Diziam que em Barra Mansa havia trabalho, e João, pedreiro de primeira, acreditou que ali poderia recomeçar.
Mas o tempo…
Não vamos usar nomes verdadeiros para não comprometer ninguém. Comecemos, então, pelo homem que tudo sofreu até se dobrar inteiramente.
João Henrique — ou Joca, como o chamavam os amigos — era, no final dos anos 1980, um empresário respeitado em Barra Mansa. Casado havia mais de vinte e cinco anos, pai de dois rapazes…
A alvorada daquele dia fatídico de 22 de dezembro de 1764 despontou com uma crueza quase brutal sobre Vila Rica. Ao invés da suavidade costumeira do amanhecer, o sol surgiu como uma brasa incandescente, lançando raios de luz intensos e implacáveis que dissiparam as sombras da noite sem qualquer cerimônia. As ruas de pedra, ainda…
Era o réveillon de 2000. Enquanto quase todos brindavam a chegada do novo milênio — nas praias, sob fogos, cervejas e promessas —, dois primos, Fabrício e Rivaldo, estavam trancados no quarto, diante do computador. Tinham dezessete e dezesseis anos, e esperavam, ansiosos, o fim do mundo anunciado pelo “bug do milênio”. Entre uma risada…
Aconteceu há muitos anos com um professor que é amigo meu — e cujo nome, por razões óbvias, não posso revelar. Aliás, nenhum nome pode ser revelado.
Era meados da década de 1990 e as férias de verão apenas começavam. Esse meu amigo morava no bairro Santa Clara e lecionava em várias escolas da cidade.…
O sol de dezembro queimava as cabeças bronzeadas na piscina do Ilha Clube. A água refletia o céu, e o som de “Uma Noite e Meia” reverberava entre risos e mergulhos.
Fernando, treze anos, rosto coberto de espinhas, corria atrás das meninas mais novas. Fazia sucesso com elas — sorria, encantava — mas seu coração…
Eu me chamo Hans Albrecht Krüger. Mas aqui, neste país de calor sufocante e olhares desconfiados, sou apenas Henrique Krüger de Almeida, engenheiro civil a serviço da Usina Getúlio Vargas, em Volta Redonda.
Faz dois anos que vivo nos alojamentos do distrito de Santo Antônio da Volta Redonda, uma fileira de casas simples para técnicos…
Clara Noronha fechava a tampa do notebook quando o celular vibrou sobre a mesa. Reunião concluída, colegas dispersando, a cidade acesa pela pressa. Pegou o aparelho distraída, mas o que leu a fez perder o ar: "O médico disse que tia Zelinha só tem alguns dias de vida. Quando ainda tinha lucidez, só falava de…
A Fazenda da Posse, sob o sol generoso que banhava o Vale do Paraíba, era um mundo em si, pulsante com a vida em suas mais diversas formas. Para Joaquim, aquele universo se desdobrava em uma sinfonia de experiências sensoriais, um aprendizado constante que ia além dos livros e das lições formais.
As manhãs, despertadas…
