Vocês conhecem a história de Atena? Contam os antigos que Zeus, tomado por uma dor de cabeça tão funda que parecia vir das raízes do mundo, chamou Hefesto — aquele artesão divino que nunca recusa um pedido, mesmo quando ele beira a loucura. Pois bem, Hefesto ergueu o machado e, com um golpe seco, rasgou…
Se há algo que me enche de um orgulho quase infantil é quando alguém lê um dos meus contos, franze o cenho e pergunta, meio desconfiado, de quem estou falando. É como se buscassem, por trás das palavras, o rosto real que teria dado origem à personagem. Para mim, essa suspeita é o melhor elogio:…
Teve uma amiga que, meio em brincadeira e meio em advertência, disse que estou com “dedos nervosos” de tanto escrever. Não deixa de ser verdade. O que meus dedos transbordam no teclado é apenas a espuma visível do que me atravessa por dentro. O volume do que escrevo é a sombra tímida do volume do…
Como já é sabido de alguns, meu romance Rios de Sangue e Ouro está em uma fase importante: a leitura crítica. É o momento de lapidar o texto, de aparar as arestas e fazer com que cada palavra cumpra seu papel. O objetivo é simples e ambicioso ao mesmo tempo — entregar ao leitor a…
Assisti a Branca de Neve e os Sete Anões quando ainda era criança. Lembro-me da serenidade com que aceitei o final: “e viveram felizes para sempre”. Era uma promessa simples, luminosa, quase automática — como se o mundo obedecesse a uma gramática de bondade. Mas o tempo, que não perdoa as certezas, me ensinou que…
Outro dia, tive a infeliz ideia de reler alguns textos que escrevi antes dos trinta. Descobri duas coisas: primeiro, que a juventude é mesmo linda. Segundo, que ela é uma desgraça em matéria de inteligência.
É curioso como o tempo é um ladrão que, ao mesmo tempo, devolve o que rouba. Ele leva o frescor…
Há uma etapa na vida de um escritor que ninguém conta. Não é o começo, cheio de entusiasmo, nem o fim, quando o livro ganha forma impressa e o autor posa sorridente ao lado de sua criatura. É o entremeio. O purgatório. O momento em que a história já não lhe pertence inteiramente, mas ainda…
Escrever, para mim, nunca foi um fardo. É quase um gesto natural, como respirar fundo diante de uma lembrança ou deixar escapar um suspiro depois de um sonho. Palavras me servem de espelho e também de remédio: nelas, reconcilio-me com o passado e risco, à mão livre, esboços do futuro. A escrita é o lugar…
Ei, pequeno, faz tempo que não nos falamos — ou talvez eu tenha apenas esquecido de escutar o teu silêncio. Lembro de ti correndo pelos quintais do tempo, com o rosto sujo de sol e as mãos cheias de mundos invisíveis. Enquanto os outros brincavam de bola, tu construías universos com pedaços de nuvem e…
Acordo todos os dias com a alma em palavras, buscando traduzir em linhas e parágrafos aquilo que a vida me sussurra. E, por vezes, a vida grita, e a gente precisa de um solo mais vasto para plantar as sementes que brotam. Foi assim que a semente de "Rios de Sangue e Ouro" encontrou seu…
Resolvi escrever um romance histórico. Ingenuamente, achei que seria um único livro. Mas a pesquisa foi tão fundo que, quando percebi, tinha material para uma saga: quatro volumes já escritos, mais dois esboçados. Um império narrativo que nasceu de um punhado de anotações.
Minha esposa é minha revisora e crítica. Lê cada capítulo com olhos…
