Barra Mansa, 28 de outubro de 1937 – 10h00 O sol da manhã batia forte sobre o pátio da Siderúrgica Barra Mansa, e o capitão Mário Pinto dos Reis, prefeito interventor do município, suava dentro do uniforme militar impecavelmente engomado. Tinha cinquenta e seis anos, postura ereta de quem nunca esqueceu o treinamento no Exército,…
Santos, Rua XV de Novembro, 15 de abril de 1937 – 10h00 O escritório de Oswaldo Richter – Importação e Exportação ficava no terceiro andar de um edifício comercial no centro de Santos, com vista para o porto. Sala pequena mas adequada: mesa de mogno, arquivo metálico, máquina de escrever Remington, telefone preto reluzente. Na…
Atlântico Sul, a bordo do vapor Cap Arcona, 25 de janeiro de 1937 – 22h00 A cabine de primeira classe era pequena, mas confortável. Beliche estreito, escrivaninha de mogno, vigília redonda através da qual se via o oceano infinito sob lua cheia. O motor do navio vibrava suavemente nas paredes de metal, som hipnótico que…
Porto de Santos, 15 de março de 1935 – 08h00 O transatlântico Hamburg atracou sob céu cinza e chuvoso. Entre os passageiros da primeira classe que desciam pela prancha, Friedrich Adler – agora com passaporte diplomático alemão como adido cultural da embaixada – observava o cais com olhos experientes. Tinha quarenta e dois anos, estatura…
Rio de Janeiro, Palácio do Catete, 15 de março de 1933 – 22h30 A fumaça de charutos enchia a sala como nevoeiro de guerra. Getúlio Vargas estava sentado atrás de sua mesa de jacarandá, dedos entrelaçados, olhos pequenos e astutos observando os dois homens à sua frente. Não eram políticos. Eram militares. E militares queriam…
Barra Mansa, Estado do Rio de Janeiro, 15 de outubro de 1932 – 09h00 O sino da Matriz de São Sebastião bateu nove vezes, e o som atravessou o Vale do Paraíba como um decreto do próprio céu. João Fernandes Magalhães estava parado no pátio do Moinho Barra Mansa, imóvel como as engrenagens que aguardavam…
Rio de Janeiro, 18 de agosto de 1930 – 14h30 O caixão atravessava a Avenida Rio Branco como uma flecha negra cravada no coração da República. Uma multidão estimada em trezentas mil pessoas – mais de um quarto da população da capital – seguia o cortejo fúnebre de João Pessoa. Mulheres vestidas de preto gritavam…
Recife, 26 de julho de 1930 – 17h15
O calor de julho pendurava-se sobre o Recife como uma mortalha úmida. Na Rua Nova, o sábado à tarde fervilhava com aquela elegância desesperada dos trópicos: senhoras de vestidos claros caminhavam sob sombrinhas, homens de paletó suavam dignidade, e o cheiro de café recém passado misturava-se ao…
